AS LÁGRIMAS DE CUNHAÚ

Recentemente, os jornais noticiaram a canonização dos mártires de Cunhaú no Rio Grande do Norte (1645). Na prática, isso quer dizer que eles podem ser venerados publicamente e sua intercessão pode ser invocada. Este artigo não trata do aspecto extra-bíblico desta prática, mas sobre o contexto histórico do fato em questão. 

A matança ocorreu durante as primeiras semanas do levante português contra a ocupação holandesa do nordeste brasileiro (1630-’54). Certas notícias afirmaram que essas barbaridades foram cometidas por ordem do governo no Recife e com a cooperação de um pastor calvinista. Sem diminuir a monstruosidade do acontecimento, convém lembrar de alguns fatos.

1) Não foi o governo holandês que ordenou a chacina, mas foi uma vingança indígena em reação às crueldades portuguesas. Desde o início da revolta ficou claro que, por onde quer que os portugueses restabeleciam seu poder, os indígenas esperavam uma morte cruel. Por isso, refugiaram-se para perto das fortificações flamengas, consideradas impugnáveis. Outros decidiram evitar o desastre inevitável e pegaram nas armas. Foi isto que aconteceu em Cunhaú. 

No Rio Grande, a população indígena consistia em grande parte de tribos antropófagas (tapuias). Sentiram que, com o início da revolta, havia chegado a hora da verdade: eram eles ou os portugueses. E, no dia 15 de julho, começaram por Cunhaú, massacrando o pessoal na capela.

2) De fato o nome de um pastor protestante está ligado a esse episódio. Porém, de modo exatamente contrário daquele que se supõe, porquanto não foi ele que orientou a chacina, mas foi enviado pelo governo para refrear a selvageria dos bugres. Os tapuias, porém, ficaram enfurecidos com seus aliados, não entendendo como estes podiam defender seus inimigos mortais. 

Depois da expulsão dos holandeses, o pressentimento tapuia se concretizou: os que não queriam se submeter à orientação político-religiosa de Lisboa, foram massacrados na “mais sangrenta guerra de exterminação que existiu por este Brasil”. Genocídio puro.

Estes fatos complementares não diminuem em nada o sofrimento de Cunhaú, porém, talvez possam eliminar um pouco do veneno da história. Escrever história é difícil, mais ainda quando se trata de um caso controvertido como este, com muitos pormenores desconhecidos. Convém distinguir entre os fatos e a interpretação dos fatos. O que não atenua, antes aumenta a nossa ansiosa expectativa do dia em que o Senhor enxugará todas as lágrimas, inclusive as de Cunhaú (Apocalipse 7.17)

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¹Nótulas Diárias do Governo Holandês no Recife, 25/7/1645, etc.
²Igreja e Estado no Brasil Holandês (3ª ed., São Paulo: Cultura Cristã, 2004).

 

 

 

 

Frans Leonard Schalkwijk, Th. M., D. Hist.
Coordenador do Departamento de Estudos Históricos
atendimento@fitref.online

18 de dezembro de 2017

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